Carga
Tributária É Inimiga Do PIB
O ESTADO DE SÃO PAULO - 04-09-2006
A carga tributária, que se aproxima de 40% do Produto Interno
Bruto (PIB), é o principal vilão do baixo crescimento brasileiro, na visão de um
grupo de prestigiados economistas ouvidos pelo Estado, que inclui desde o
liberal José Alexandre Scheinkman, da Universidade de Princeton, até o
desenvolvimentista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações
e sócio da Quest Investimentos.
O clima entre esses pensadores da economia brasileira está mais para pessimismo.
Contribuem para isso a explosão de gastos públicos eleitoreiros em 2006, e a
omissão no programa econômico do candidato favorito, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, da meta de conter os gastos públicos.
Com a divulgação do péssimo resultado do PIB no segundo semestre, com
crescimento de apenas 0,5% sobre o trimestre anterior, ressurgiu a preocupação
de que, apesar do excelente cenário internacional e da solidez das contas
externas, o Brasil ainda esteja amarrado à tendência de baixo crescimento dos
últimos 20 anos. A última média de projeções do mercado indica crescimento de
3,5% em 2006. Na verdade, porém, o resultado do segundo trimestre já está
provocando uma rodada de revisões para baixo da expansão do PIB neste ano, para
algo em torno de 3% ou menos. Isso levaria a média de crescimento anual no
governo Lula a 2,7%, apenas ligeiramente acima da média medíocre de 2,3% das
últimas décadas, que coloca o Brasil como uma das economias emergentes de pior
desempenho, junto com países como Argentina e Venezuela.
Mesmo países que o Brasil costuma olhar com superioridade estão correndo na
frente. O Peru, por exemplo, um país pobre, com um histórico de conflitos
sociais e guerrilha, que está longe de ser um exemplo de boas instituições, deve
crescer uma média de 4,7% entre 2003 e 2006, 2 pontos porcentuais acima do
Brasil. Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio da Gávea
Investimentos, não se surpreende com isso. O Peru está crescendo mais porque
está melhorando mais; todos os países que estão crescendo mais rápido do que a
gente estão melhorando mais rápido também.
Quando se sai do tema da carga tributária, diminui o nível de consenso entre os
economistas. Todos eles concordam, ou pelo menos admitem, que a política de
aperto monetário de 2004 e 2005, promovida pelo Banco Central (BC) para conter a
inflação, pode ter sido excessiva. Mas o grau de importância atribuído a esse
fator varia muito. Para Mendonça de Barros, os juros altos são uma peça
relevante do conjunto complexo de fatores que explicam o reduzido crescimento
brasileiro. Scheinkman também vê os juros excessivos como um erro dos últimos
dois anos, mas acha que esse é apenas um fator de curto prazo. A posição de
Fraga e de Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA e um dos formuladores do
Real, é parecida, mas com ainda menor ênfase.
O câmbio valorizado, por sua vez, é visto como um causa importante do fraco
desempenho da economia brasileira apenas por Mendonça de Barros. Para Scheinkman,
Fraga e Bacha, este é um fator que pode ter, no máximo, um efeito marginal.
?Câmbio e juros são questões de natureza estritamente conjuntural, que desviam a
atenção de problemas estruturais muito maiores?, diz Bacha.
Um outro ponto de consenso entre todos os economistas é o péssimo ambiente de
negócios no Brasil.
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